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domingo, 27 de janeiro de 2013
Conto 2 - O raio trator
Estávamos
todos reunidos na casa de Neide quando o fim do mundo aconteceu, pelo
menos do mundo como conhecíamos até então. O noticiário da TV anunciava
grandes catástrofes por toda parte no globo terrestre. Éramos
testemunhas indiretas, hoje eu sei, porque pudemos perceber, ao olhar
pela janela da sala do apartamento que alguma coisa de muito estranha
estava ocorrendo em algum lugar não muito longe de onde estávamos,
tamanha era a quantidade de estrelas cadentes que cortavam o céu vindo
de todas as direções. Surpreendentemente, nada aconteceu em nossa
vizinhança, pelo menos de imediato, pensávamos. Ocorreu-me que talvez
devêssemos sair correndo pra rua antes que as consequências do
desfirmamento celeste chegassem até nós. Pensei logo em tsunamis,
incêndios de grandes proporções, que cedo ou mais tarde nos alcançariam.
Depois
desse evento catastrófico dos fins dos dias, foi longo, muito longo o
período de aprisionamento que vivi. Tudo aconteceu muito depressa
naqueles momentos finais em contraponto com o que viria depois.
Lembro-me, no entanto, de poucas coisas, que não se casam para formar
uma ideia clara de como vim parar nesse estranho lugar onde vivo desde
então. Além de não compreender exatamente tudo que aconteceu naquele
dia, por não conseguir montar uma cadeia lógica para os acontecimentos,
estimo que danos maiores também se somaram para que eu chegasse ao ponto
que cheguei, talvez o efeito de um aprisionamento prolongado, como
saber?
Lembro-me
de alguns flashes, entre eles o de haver conhecido uma estranha
criatura que me abordou como se já me conhecesse, me chamando de Arthur.
Olhei para ela, e custei a entender o que estava acontecendo comigo.
Senti um aquecimento pelo corpo e cheguei a desejar-lhe. Era estranha e
interessante. Foi um pouco antes que eu percebesse a estranha luz que
vinha do espaço e incidia sobre nós, aparentemente apenas sobre nós
dois, banhando nossos corpos, envolvendo-nos em uma espécie de neblina,
de nuvem-chuva. Não me lembro de mais nada depois. Talvez tenha sido um
sonho. Será que realmente encontrei aquela mulher? Não tenho certeza se
isto de fato ocorreu. Acho que sou habitado por personagens fictícios
entre os quais me perco muitas vezes, ou talvez quase sempre, quando me
sinto incapaz de saber quem sou nessa multitude de pensamentos, vozes e
imagens que me povoam.
Essa
aparente perda de identidade experimentada por Etevaldo estava
levando-o às raias do desespero, deprimindo-o, entristecendo-o de uma
forma que só estava servindo para agravar seu estado de melancolia. A
experiência estava além da sua capacidade de assimilação, ele não
conseguia a energia gratuita que pairava em torno de si, o que era
evidentemente um sinal de inteligência curta. O feixe oco de laser que o
abduziu era um raio trator oriundo da nave Startrek que suspendeu os
dois pombinhos do chão, conduzindo-os por um duto para uma nave espacial
em formato de charuto que pairava a uns 100 metros do local onde
estavam.
O
mundo mudou depois disso, não sabía até então que estava presenciando
uma profunda revolução no planeta em que vivía. Não devemos nunca
subestimar as reviravoltas que o destino reserva para nossa vida. Quando
alimentamos a ilusão de termos o controle dela, um grande vazio costuma
se estender a nossa frente, principalmente se não sabemos esperar o que
o acaso pode nos oferecer. Por isso, caro leitor, você não pode
imaginar o prazer que sinto em certificar-me que a natureza se repete
indefinidamente naquilo que há de mais trivial em nossa vida. Mesmo
agora, quando esperava que tudo fosse diferente, que pensava que
emergiria de súbito em outro mundo, se nada não fosse, uma outra era,
numa outra natureza cujas leis fossem diferentes daquelas da nossa,
deparo-me com a mesma situação que deixara no outro mundo. Estarei preso
a algum padrão do qual não consigo me libertar?
Ah,
a diversidade dos mundos possíveis, como ajudava nessa hora! Sabemos e
muito apreciamos o fato de que as coisas exteriores do mundo visível
provêm de várias dimensões diferentes e complementares ao mesmo tempo.
Convivemos numa multiplicidade de mundos exclusivos, não apenas forjados
pelas lentes da ilusão, mas por leis naturais mais férreas que a
realidade do cotidiano que experimentamos. Etevaldo pensava assim,
julgava compreender um pouco mais do que a maioria de seus iguais, e
gozava da convicção íntima de que viver como um cara desligado era o
segredo de jamais deixar o melhor da vida escapar. Esse era seu maior
ato de confiança: transcender-se. Subconscientemente agia como se
acreditasse que pessoas aparentemente separadas no tempo e espaço, mas
que vibram em uma frequência comum, acabam se reencontrando
repetidamente pelas voltas que o mundo dá.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Cap VI - Mais Brilhante que o Sol
A música de Colbie Caillat entrava pela janela, tocada em alto volume na casa da vizinha, um lugar que parecia estar em permanente festa.
Oh, this is how it starts, lighting strikes the heart
It goes off like a gun, brighter than the sun
Oh, we could be the stars, falling from the sky
Shining how we want, brighter than the sun
Mais brilhante do que o sol, realmente, era uma linda chuva de estrelas como jamais vista anteriormente, como se fosse um espetáculo pirotécnico sem som da virada de ano na praia de Copacabana. O céu parecia estar desabando, como seria se o mundo estivesse acabando, mas a vizinha não viu nada. Eu também teria perdido de vista o fenômeno se não tivesse ido até à varanda fumar um cigarro. Quase perdi o fim do mundo, daquele mundo que não era o meu, pelo menos, porque este estava apenas começando.
Muitas coisas aconteceram depois que me separei de Suzy. Entre elas, decidi mudar de nome para me adaptar às novas condições de vida, adotando um nome comum entre os cidadãos do local onde decidi viver: Hélio. Vim morar em uma cidade provinciana próximo a uma grande cidade da América do Sul, onde se esconde grande parte dos salafrários do universo, que fogem de alguém ou de algum lugar. De forma a evitar a proximidade física com Suzy e novos aborrecimentos, utilizei um recurso engenhoso que trouxe de meu planeta natal, que era o de voltar no tempo de forma a garantir a separação conveniente em relação ao problema Suzy. Era início da década de sessenta do século XX do calendário terrestre predominante no lado ocidental do planeta.
O propósito de Hadros, agora Hélio, era construir um novo futuro, diferente daquele que pensava e arquitetava no seu planeta de origem. Afinal, agora se encontrava em condições completamente distintas do que vivera até então. E diga-se de passagem, era necessário construir um passado também. Hélio não tinha um passado no planeta Terra e, portanto, era necessário inventá-lo. Vivendo assim de uma forma em que o passado não está propriamente definido, Hélio decidiu criá-lo à medida que fosse vivendo, numa espécie de experimento de escolha retardada, adiando suas decisões diárias até o último momento de suas ações, após avaliar cuidadosamente as consequencias, ou seria melhor dizer, as causas que as originaram. Essa quase não decisão já se mostrou muito eficaz anteriormente, técnica esta que ele dominava com maestria, prevenindo-o de muitos problemas inconvenientes. Tal técnica de autogestão pessoal proporciona a seu portador a possibilidade não apenas construir seu passado como também de alterá-lo a qualquer momento.
Hélio chegou em Niterói havia pouco tempo e ainda não conhecia muita coisa, embora tenha se familiarizado rapidamente com o ambiente da cidade e costumava frequentar a praia de Icaraí, onde passeava pelas areias despreocupadamente. Foi em uma dessas caminhadas que encontrou Saturnino, de quem tornou-se amigo e se frequentaram a partir de então. Foi amizade à primeira vista. Saturnino prometeu ajudá-lo a construir o passado desejado, conhecia as pessoas certas para isso, lembrou-se logo de Arturo, outro amigo esquisitão que tinha conhecido também na praia de Icaraí. Pois era isso que Hélio queria, construir seu passado em função do futuro almejado. Passado e futuro, um espectro duplo de possibilidades idealmente correlacionados. Ele e Saturnino viravam noites sentados nos bancos da praia de Icaraí lucubrando sobre as possibilidades da história de vida a ser criada.
A Helio lhe encantavam as mulheres locais. Começou a azarar todas que encontrava pela frente. “O bom é assim”, dizia, “a corte sem necessidade, para que seja natural e simples quando for de fato necessário e desejável.” Envolveu-se tanto com todas que as oportunidades ensejavam que acabou se entusiasmando com uma delas, que só lhe deu o que queria depois de ser levada ao altar. Aos amigos que lhe advertiam sobre a inconveniência de tal matrimônio costumava repetir que nunca dispensava uma mulher bonita, “seja ela de que espécie for”, repetia sempre, como se significasse algo mais do que compreendemos em um primeiro momento.
Seu casamento durou o tempo que uma cigarra canta.
“Não tenho esperança de encontrar uma mulher para amar, uma apenas, porque o que eu amo nas mulheres está dividido entre muitas. A mulher que me satisfaria se fragmentou em incontáveis pedaços e eu agora busco restaurar os cacos espalhados em diversas delas”, ouvimos-lhe dizer.
“Hélio, sua vida é insustentável. Como pode viver dessa maneira? Você acabará fazendo alguém sofrer dramaticamente”, ousou dizer Arturo, o amigo esquisitão, sacudindo a cabeça ao ouvir tal disparate do amigo, como se apenas confirmasse o que ele já sabia desde o início. Ele era da opinião de que os casamentos são selados no céu e que, uma vez que duas pessoas estivessem predestinadas para se pertencerem, nada poderia separá-las na Terra.
“Tudo que fizermos nesta dimensão dos acontecimentos efêmeros não pode afetar o mundo das coisas que permanecem, daí a necessidade de se colocar à prova as candidatas que encontramos nessa vida, para saber quem de fato deve nos acompanhar até o fim de nossos dias”, arriscou Saturnino, em dúvida sobre o que realmente significava o que acabara de dizer, mas com um forte pressentimento que correspondia ao pensamento do amigo alienígena.
“A ética é como o amor”, Arturo, “deve-se viver o presente, as consequências não importam. Quando se pensa no passado, é porque já se perdeu a paixão. O que você disse pode ser verdade, enquanto opção de vida, espero contudo que a própria vida resolva o problema para mim, sem que eu precise fazer nada”.
Uma ética centrada na transcendência. A traição amorosa não é aceita socialmente, é uma culpa absoluta e imperdoável; certamente não pode, mas deve ser realizada. Hélio era uma espécie de herói trágico, um autêntico revolucionário que afronta o mal e aceita suas consequências. Só a traição realizada por quem sabe firmemente e fora de qualquer dúvida que ela não pode ser aceita sob nenhuma circunstância seria de natureza moral.
Assim, o casamento de Hélio se desfez em um desses ditos testes planejados para caracterização de quem é o ser que deve realmente viver a nosso lado. Constatou-se que a esposa se tratava de uma falsa terráquea, um ser clone que tinha substituído a mulher verdadeira quando ela ainda era uma adolescente. A verdadeira Marilza, era esse o nome da mulher de Hélio, estaria agora em algum subterrâneo do nosso planeta, onde grassam bases militares, como se diz, servindo-se de cobaia de experimentos extraterrestres.
Depois de Marilza, Hélio conheceu uma bela jovem niteroiense de nome Rosa, com quem viveu um tórrido romance de conseqüências duradouras. A certa altura do relacionamento, devido a diversos obstáculos que surgiram na vida dos enamorados, o casal decidiu fugir mundo afora, e Rosa avisou aos pais que iria de férias para São Paulo. O verdadeiro motivo, um segredo, era viver em plenitude a força de seu amor, por mais bizarro que possa ter sido a escolha de São Paulo para tal cenário.
Rosa viajou para a capital paulista na noite de 12 de Agosto de 1964, em um trem noturno, que lá chegou às 8h15min do dia seguinte. Infelizmente, o amor de Rosa não resistiu aos testes que Hélio a sujeitou e o romance terminou indesejadamente ao cabo de um mês, com Rosa voltando decepcionada para Niterói, curiosamente tornando verdadeira a mentira que alegara a seus pais ao partir para São Paulo. No ônibus em que regressava para Niterói na noite de 13 de Setembro de 1964, que saiu da capital paulista às 21:00 horas, Rosa relatou sua malfadada história a uma jovem alma elegante sentada na poltrona a seu lado que também voltava de São Paulo para Niterói e que logo lhe despertou a mais sincera simpatia, jovem esta que viria a narrar suas peripécias algumas décadas depois em uma obra literária a que deu o título de “Cabine Individual”. A semelhança entre os nomes das duas jovens nos fazem pensar em como são significativas as coincidências que a vida nos proporciona. Anos mais tarde Hélio encontraria a jovem alma elegante e usando toda perversidade de sua alma desqualificou a narrativa de Rosa, insinuando que a mesma teria inventado toda história, realizando uma espécie de versão metafísica do que outros já teriam feito materialmente, a saber, a multiplicação dos dias: os trinta dias da história de Rosa não teriam passado de um único dia, todo o resto sendo fruto da fantasiosa imaginação da jovem.
Conheci Hélio pessoalmente muitos anos depois, em Campos de Jordão. Ele veio de São Paulo para esta cidade havia cerca de 20 anos. Abriu um restaurante gourmet e recebia os clientes de forma muito gentil (não é pra menos, foi o restaurante mais caro que já fui na minha vida!). Disposto a tirar a limpo as coincidências que detectei lendo a revista "Encantos e Sabores" da região, pedi um vinho e atraímos, eu e Karina, o proprietário para uma conversa investigativa. Ele acabou contando muitas histórias, entre as quais pude identificar a contada em Cabine Individual. Ele me contou a versão dele da história e achei tão horrível que é melhor contar bem rápido para você, estranho leitor que me acompanha até aqui:
Sobre seu primeiro divórcio ele disse que se tratou de uma injunção da vida necessária a todos os homens, porque chega um momento em nossa vida que a gente tem que trocar de mulher, porque a parceira que serve para uma fase da vida não serve para outras. A menos que a gente não queira aprender nada ao longo da vida. Usando de um vocabulário muito inapropriado, passou a ilustrar alguns casos, com frases clichés do tipo “não vejo problema em comer uns aperitivos na rua desde que se jante em casa”. Lembrei-me imediatamente de uma passagem de “Cabine Individual”, em que ao ser indagado por Rosa dos motivos que levavam um homem casado a procurar outras mulheres fora de casa, Hélio teria respondido desembaraçadamente:
“Para um homem, a boa esposa é como a água, necessária à vida, que não pode ser dispensada. No entanto, nada impede que, além disso, tendo a oportunidade de tomar um bom vinho ou uma marca de guaraná, ele queira provar esses outros sabores.”
Provavelmente o leitor também conhece mais alguém que veio do mesmo planeta que Hélio. No entanto, há controvérsias se Hélio era de fato o que Rosa pensou a seu respeito. Ele pode ter sido condenado injustamente por uma brincadeira que não avaliou chegasse a tais consequências. Para Hélio, o mais importante no amor é que ele fosse submetido a provas que resistissem aos obstáculos circunstanciais. Tendo isso em mente, ele testou o amor de Rosa por ele antes de dar o passo decisivo que uniriam suas vidas. Helio, de fato, pelo que descobri em nossa conversa, origina-se do planeta Pleiggraum, famoso porque seus nativos são considerados brincalhões e parecem não saber os limites entre o que é verdadeiro e o que é sério na vida. Como um último teste para saber se Rosa o amava realmente, colocou um bilhetinho em seu paletó simulando um encontro amoroso com Cleusa, que teria sido desmarcado na última hora, e deixou o paletó em casa naquele dia ao sair para trabalhar. Hélio sabia que Rosa iria mexer no bolso de seu paletó, e ao ver o bilhetinho, colocaria em cheque a autenticidade do seu amor. Na noite anterior, ele tinha preparado tudo, inicialmente dizendo que chegaria tarde do trabalho e mudando de planos na última hora, como se tivesse levado um bolo da suposta amante e voltado mais cedo para casa. Quando chegou em casa naquela noite, constatou que Rosa não tinha passado no último teste do amor. Ela tinha lhe abandonado e em cima da mesa da sala estava o bilhetinho que tinha usado como umbral para a aceitação final do verdadeiro amor.
Quando Hélio abriu a porta do apartamento aquele dia, após um dia estafante de trabalho, achava que enfim seus temores tinham se desfeitos. Rosa era digna de seu amor e merecia toda a sua confiança, ao contrário de sua mulher anterior, a Marilza. Ao abrir a porta, ouviu o som da chave sendo arrastada pela porta. Achou aquilo estranho, era um mau presságio. Avistou ainda de longe, sobre a mesinha central da sala um bilhete. Pensou o pior, que seria um bilhete de Rosa dizendo que teria … não... era o bilhete de Cleusa, que ele tinha inventado, sobre a mesa, aberto, bem visível.
Vamos nos construindo ao longo de nossa vida, contando com os seres que podem nos ajudar nessa tarefa. A principal função do casamento deveria ser a de proporcionar o crescimento pessoal dos nubentes. Se não se fizessem tais prognósticos entre os seres, a união matrimonial deveria ser descartada, e apenas satisfações passageiras deveriam ser buscadas, assim pensava Hélio. Sua busca se revelou infrutífera ao longo dos anos até que ele encontrou seu parceiro prometido pelos céus, e que veio a ser alguém do mesmo sexo. Hélio se tornou homossexual a partir de certa altura de sua vida, e finalmente foi feliz.
Encontrei também Rosa, muitos anos mais tarde, e ela me confessou que ainda amava Hélio, embora não acreditasse que ele jamais tivesse amado alguém. “Ainda hoje correria a seus pés, se soubesse que ele me ama e não tivesse aderido à preferência por homens, como você afirma. Nós, mulheres, estamos sempre nos culpando, pela falta de diálogo, e cobrando dos homens, em momentos que eles não sabem nada”, foi a última coisa que me disse e que na hora pensei ter entendido.
Conto 1 - Almas Elegantes
Comunicado Final - Estado Máximo de Alerta
12-09-2012 09:29
Objeto celeste identificado como Eugenia encontra-se a 145.165 km da Terra. Impacto direto com o planeta é esperado ocorrer em 15 de Setembro de 2012.
São os equívocos cometidos ao perseguir nossos objetivos que nos conduzem à realização dos anseios mais profundos e autênticos. O que parece muitas vezes tolices humanas é reflexo do que emana das estrelas, de compulsões celestes. Porém, não são os astros no céu que nos governam, mas nós mesmos que viemos um dia das estrelas e que revelamos nosso destino aos que souberem decifrar o sinal que está visível na face de cada um.
Etevaldo era um jovem oficial do sistema de vigilância espacial das Nações Unidas, dividido entre dois mundos, e nada em sua fisionomia indicava o drama interior que afligia sua vida. Se por um lado sua prática profissional exigia uma disciplina metódica e empírica, com inquestionável capacidade de raciocínio lógico, por outro lado, tinha uma percepção quase metafísica de que a aparência das pessoas revela muito mais que a ordem local de proliferação humana no planeta Terra, além da genética e dos costumes. Pressupondo que os indivíduos são forjados em matrizes extraplanetárias, acreditava que quando encontramos duas pessoas parecidas na Terra, elas, ou seus antecedentes, provavelmente teriam vindo de um mesmo planeta. “A gente sabe quando elas têm uma origem comum quando vemos uma e nos lembramos prontamente da outra”, costumava dizer aos amigos. “Vieram do mesmo planeta”, era seu bordão preferido quando se referia à semelhança entre duas pessoas, sem suspeitar da igual possibilidade de verossimilhança interna das pessoas, ainda que as admitisse tanto no plano físico como espiritual. “Podemos encontrar seres de diversos planetas andando pela rua, cada qual com seu tempo característico, às vezes a mesma pessoa em tempo diferente de sua existência, ou personagens de sonhos próprios e alheios”. Acreditava que quando as pessoas são diferentes, mas existe afinidade entre elas, significa que elas viriam do mesmo sistema estelar, explicando porque se estabelece facilmente entre elas uma certa cumplicidade, simpatia instantânea. Se sentimos atração física por alguém, isso significa que originamos de uma mesma estrela, embora não necessariamente de um mesmo planeta. Quanto maior o número de estrelas de um sistema, maior a diversidade de atrações de seus nativos. No caso dos habitantes do sistema solar, por exemplo, acreditava que se vive numa espécie de ambiguidade existencial, pela invisibilidade da presuntiva estrela que formaria um par com o Sol, o que parece uma vulnerabilidade da tese de Etevaldo ao condicionar a caracterização dos seres ao conhecimento que se tem da sua situação de fato. Etevaldo saía do impasse afirmando que a natureza do universo é dual, e que muitos fenômenos físicos, principalmente na esfera do humano, só se realizam quando são compreendidos. E assim prosseguia o pseudocientista teorizando que os seres provenientes de sistemas duplos, ternários, etc., geralmente têm muita dificuldade de se aterem a relacionamentos amorosos com apenas um parceiro, havendo uma propensão a se relacionarem com tantas pessoas quantas forem as estrelas de seu sistema de origem. Muita tolice que não valeria a pena ser contada se algo de espantoso não tivesse ocorrido naqueles dias finais, o que passo a contar como forma de compensar o descrédito de que eram alvo suas ideias.
Karina, nativa do planeta Gliese 51, onde habitantes eram fabricados aos pares com destinos pré-estabelecidos, sonha que sua alma gêmea existe em outro planeta, NGS 549672, e vai em busca de seu sonho para mudar um destino que lhe parecia, a princípio, irrevogável. Engajada numa operação de resgate do ser desejado, Arturo, em um planeta distante do seu, encontra resistência por parte dele para segui-la, mas rapta-o e foge para Terra. Entre experimentos sensoriais e entreveros intelectuais ao longo da viagem interplanetária, nada mais resta entre eles ao desembarcarem na Terra. Cada qual tomou seu rumo e quis o destino que ambos viessem morar em Niterói, uma zona franca repleta de alienígenas vizinha à cidade maravilhosa.
Enquanto isso, na Terra, Rosa decide, enfim, concretizar a viagem de seus sonhos para esquecer uma antiga frustração amorosa que teve em viagem de trem a São Paulo. O destino cuida dos elementos da trama e leva Rosa à Itália onde, ao testemunhar um crime de rua, ela se depara com estranhas coincidências. De volta a sua cidade natal, Rosa encontra Arturo, alguém muito parecido com o assassino italiano. A semelhança exerce uma mórbida atração sobre Rosa, e desencadeia mudanças inesperadas em sua vida. Ao se envolver amorosamente com o misterioso personagem, Rosa acaba presa por agentes espaciais numa batida policial, e enviada equivocadamente para Gliese 51. Em vão debateu-se Rosa para provar que não era quem as autoridades pensavam que fosse. Todos os testes de identificação comprovavam que ela era uma alienígena ilegal no planeta e deveria ser extraditada.
Abandonada por Arturo ao chegar na Terra, Karina passou por muitos lugares: San Diego, El Paso, México, Quintana Roo, Maracaibo, São Luís, Salvador e, enfim... Niterói. Fez amigos por todos os lugares por onde passou enquanto mantinha em segredo sua verdadeira identidade alienígena. Viveu discretamente e ninguém suspeitou de nada. Todos a tinham por amiga, ninguém se importou em perguntar de onde ela viera. Assim foi vivendo sua vida até encontrar o que pensou, a princípio, ser Arturo. Mas não era. Seu encontro com Etevaldo a faz questionar sua história pessoal, seu sonho lhe vem a mente, seu engano original, e enfim compreende e se apaixona com a mesma intensidade da paixão que a fez cruzar 20 anos luzes do espaço sideral. Mas o destino lhe cobrou um preço elevado demais para realizar seus sonhos mais queridos.
Originando da Cabeleira de Berenice se avistava um pequeno foco do que parecia ser fragmentos de uma estrela que foi aos poucos se expandindo, em dezenas, centenas deles, como um radiante de estrelas cadentes de observação tão usual para Etevaldo. Foi amor à primeira vista. Não há muito o que dizer quando almas gêmeas se encontram. A quantidade de estrelas cadentes foi aumentando de uma forma inédita, e em pouco tempo o firmamento desabou sobre os dois.
domingo, 8 de julho de 2012
Cap II - Viagem à Itália
Pietra
ergueu os olhos para o céu estrelado. Como era belo o mundo! Que
sentimento imenso era viver! Um dia ainda viverei além do que sequer
posso imaginar, em algum mundo desconhecido neste espaço infinito,
repetiu para si mesma. Num gesto instintivo, buscou a estrela brilhante
que admirou outro dia. Alguém lhe disse se tratar de Sirius, que por
alguma razão que já não se lembrava era considerada a estrela cão. Cão
celeste! Mais à direita, aquelas estrelinhas ela conhecia, as
três-marias, três brilhantes no cinturão de um caçador imortalizado no firmamento.
Um objeto resplandeceu mais para norte, refletindo uma luz verde da
aurora que resplandecia no céu àquela hora. Muito linda a aurora que
irrompeu no céu setentrional, mas estava atrapalhando sua viagem dos
sonhos, sonhos reais dessa feita.
A
tempestade, que registrara um índice oito na escala de perturbações
magnéticas que vai de zero a nove prendeu-a um dia a mais nos Estados
Unidos, o que acabou valendo a pena pelo magnífico espetáculo oferecido
pela aurora boreal. Havia a notícia de uma outra explosão solar se
dirigindo em direção à Terra e isso poderia atrasá-la ainda mais. A tão
sonhada viagem à Itália iniciada havia apenas dois dias era interrompida
inesperadamente por eventos astronômicos, uma força maior, o que se há
de fazer? A noite passada tinha sido de transtornos, com interrupção da
energia elétrica na cidade, problemas no aquecimento do quarto do hotel.
E agora tinha mais essa ameaça de um objeto escuro das profundezas do
espaço que se dirigia em direção da Terra, com riscos reais de colisão. Que
calamitosa seria uma destruição cataclísmica do nosso planeta em
consequência de uma colisão com um objeto saido das trevas do espaço
profundo! Mas
ora, isso não iria estragar seus planos, porque a viagem à Itália tinha
finalmente começado, quer dizer, ela já tinha saído do Brasil mas ainda
não tinha chegado a seu destino. Algo lhe dizia que poderia encontrar
alguém especial nesta viagem. Então era isso, como ela não tinha pensado
nisso antes, o asteróide, ela já podia vê-lo no céu, uma diminuta
estrela, sim, era ela, um pouco alaranjada, ela via, era a estrela guia
para algum acontecimento extraordinário em sua vida. “Ah, meu Deus,
serei sempre assim”, se perguntou, “achando que o que mais quero está
para acontecer a qualquer momento?” Esse otimismo teimoso já estava lhe
cansando, mas não sabia viver de outra maneira, ela era assim. O
asteróide, “uma estrela guia?”, era a benção que faria aquele estranho
sair de seus sonhos, enfim o Sr. Certo entraria em cena. Ela não perdeu
seu tempo cultivando com tanto carinho esse sentimento e se resguardando
por toda a vida. “Mas não, deve ser bem ao contrário, pouco importa
quem amamos nessa vida, tudo perece, tudo se desfaz, tudo se rompe, o
que vale mesmo é a história que construimos, isso levamos para sempre. O
objeto do amor, sim, devemos amar, mas é da história que ele
proporciona que devemos cuidar com todo o zelo possível”. Seus
pensamentos foram interrompidos pelo barulho de uma sirene. A falta de
luz continua. Os sons das sirenes se aproximam. Alguma coisa está
acontecendo, alguém está em apuros. Uma coluna de fumaça sobe a certa
distância encobrindo o luar. Tempos sombrios são estes.
Há
pessoas que simplesmente amam, não importa quem. Amam
intransitivamente, e esperam que alguém se torne o objeto desse amor.
Esperam que alguém caiba em seus sonhos. Pietra era assim e por isso
permanecia solitária. Faltava alguém na sua história. Quando se olhava
no espelho, dizia para si mesma, sem convicção, que “seria melhor amar
incondicionalmente, até o desespero se for possível, porque é disso que
se trata o verdadeiro amor, desinteressado, gratuito”. E parecia ouvir o
espelho que retrucava “mas não podemos perder de vista aquilo que
permanece que é a história de cada amor em particular. Melhor ficar só,
Pietra! O objeto do amor perece, o que permanece é a história que se
constrói mesmo quando o amor não é correspondido, quando não existe
recíprocidade”.
Pietra
lembrou daquele estranho sonho que a perseguia, recorrentemente, em que
era uma exilada de um planeta que orbita um sistema estelar binário. No
sonho havia duas estrelas amarelas como o Sol que mantinham o pequeno
planeta iluminado a maior parte do tempo. A noite era curta nesse mundo
conhecido apenas em sonhos. Era um mundo idealizado, só mesmo em sonhos,
tudo muito certinho, padronizado. Todos inteligentes, aplicados no
trabalho e focados em seus objetivos, ou seja, vivendo para aquilo que
foram criados. Um porre! Parecia o que a gente quando criança imagina
que seria o céu. Seres perfeitos que se dedicavam integralmente à busca
de um equilíbrio entre corpo, mente e natureza, embora ninguém fosse
capaz de notar nenhum sinal de desequilibrio que justificasse tanto
empenho. Assim como na Terra existem noite, dia, amanhecer e entardecer,
em Tattoine, eis o nome do estranho astro dos sonhos de Pietra, ainda
existiam diferenças entre os entardeceres e amanheceres que dependiam de
que estrela se punha ou nascesse. Havia uma complexa composição de
claridade e escuridão no calendário deste sistema estelar, resultado do
nascer e por dos sóis distintos. Havia dias de dois sóis, dias com
apenas um dos sóis que eram diferentes se o sol no céu fosse o maior ou
menor deles, e a noite que resplandecia com milhares de estrelas
diferentes daquelas que se podia ver aqui da Terra. Muitos habitantes
desse lugar dos sonhos alcançavam estágios de consciência bem evoluídos,
que permitiam mover pequenos objetos ou por em prática dons
telepáticos, algo parecido com o que Uri Geller andou fazendo no planeta
Terra em algum momento do século passado. Foi em um sonho desses que
Pietra encontrou Andros, que lhe pareceu alguém muito familiar, talvez
por isso mesmo uma pessoa de carne e osso como ela, que vivesse aqui,
bem perto, no seu próprio mundo. Era perturbadora a sensação que
persistia após acordar sempre que tinha esses sonhos, esse personagem
cujo nome ficou sabendo sem saber como, ou por quê. Quem era esse
estranho personagem e o que esse sonho poderia significar? Pietra era
uma daquelas pessoas que sentiam na pele a iminência de um acontecimento
avassalador: o fim do mundo? O bem amado que surgiria em seu caminho ao
dobrar uma esquina? O que impregnava o seu ser era um sentimento que se
assemelha ao da vinda do Messias para os judeus, ou da segunda vinda de
Jesus para os evangélicos. O Messias viria para reinar sobre todos,
enquanto seu amado viria para reinar em sua vida.
Uma
estrela cadente riscou o céu em grande velocidade, enorme, através do
firmamento de Vega da Lira, a noroeste, para além do grupo de estrelas
da Trança de Berenice na direção da constelação de Leão. Pareceu-lhe ver
também uma nave preta e vermelha que descia através da neblina das
estrelas, desaparecendo rapidamente do campo de visão, provavelmente
fruto de sua imaginação.
Na
noite seguinte, um bólido alçava vôo do aeroporto J.F Kennedy rumo ao
velho mundo, e lá ia nossa heroína nas asas da United Airlines, rumo a
sonhos há muito acalentados, de que algo diferente a fizesse encontrar
coisas duradouras em sua vida, para que o desfilar das novas imagens que
experimentaria nessa viagem mudassem sua relação com o mundo,
eternamente igual até então. “Às vezes penso que já morri outras vezes e
que nunca poderei morrer completamente. Que sentimento estranho era
esse! E que hora mais inapropriada para ficar pensando nessas besteiras”
- era o pensamento que lhe passava pela cabeça enquanto observava as
nuvens no chão de um céu de estrelas.
Os primeiros dias em Roma foram inesquecíveis, mas agora as
malas estavam todas prontas novamente. Pietra tomou o café da manhã e
disse adeus ao Maison Vaticana. Foi-lhe difícil deixar a cidade. Agora
entendia perfeitamente o que todos dizem a respeito de Roma: uma
metrópole histórica! Ela não conseguiria ver tudo e apreciar tudo mesmo
se ficasse um mês na cidade. Precisaria de meses. Após cinco dias
intensos, teve que dizer adeus à bela cidade romana e deixá-la para
trás.
Acordou
muito cedo pois o trem para Nápoles partia as 6h45. Ao chegar na cidade
napolitana, depois de deixar as malas no hotel, fazia um primeiro
reconhecimento da cidade caminhando pelas ruas quando presenciou uma
briga. Viu um homem segurando uma faca numa posição de golpe, de onde podia-se ver o sangue gotejando. Foi tudo muito rápido, ela não conseguiu discernir nada do que estava acontecendo.
- Tirem a faca da mão dele! - ouviu.
O
homem saiu em disparada e passou por ela, quase se esbarraram, e ela
pode ver num relance, com a força de algo que ela não conseguia definir,
os olhos do assassino, que a fitou do vazio de sua alma, fazendo-lhe
estremecer. Era o semblante de uma fera saciada. Passou desembaladamente
por ela correndo até o final da rua e virou uma esquina na direção da
Piazza Bellini.
- Puttana madona... la testa piú - alguém gritou
-
A vítima encontrava-se agonizante na calçada. Ligaram para os
bombeiros, uma grande quantidade de gente foi se aproximando. Havia
nervosismo e desespero nas vozes das pessoas. Algumas tentavam estancar o
sangue do jovem rapaz mas com insucesso. Em menos de 15 minutos o belo
jovem jazia morto e uma poça de sangue se formou sob seu corpo,
escorrendo lentamente em direção ao meio-fio.
Juro que vou … desmaiar, foi a última coisa de que se lembra antes de acordar num lugar desconhecido e gelado.
O
jornal do dia seguinte noticiava que o crime se tratava de uma vendetta
amorosa, que a vítima tinha um relacionamento com a mulher do
assassino, que o mesmo tinha “simples e efetivamente silenciado o
ofensor”. A reportagem explorava os dois lados de um crime passional,
sua barbaridade por ter sido um assassinato a sangue frio e a questão da
honra do marido traído, mencionando em certo trecho que “vita promiscua
non ha mai fatto nulla di buono a nessuno”. A tragédia porém não parava
aí, porque o assassino infligiu, posteriormente, danos fatais à mulher
por causa da traição, e também nela enterrou a faca, vingando-se do
ultraje.
Pietra
certamente sentia e não o negava, enquanto um estremecimento íntimo
ameaçava o que ela pensava a respeito de si mesma, um certo tipo de
admiração por um homem que tivesse brandido friamente uma faca, de aço
frio, com coração, para limpar sua honra, mas temia-o igualmente,
terrivelmente, tanto mais por ele se assemelhar com ..., era ele, o
homem dos seus sonhos. Havia um pesadelo inscrutado na mente da jovem
brasileira. Quando avistou aquela face tão familiar e tão estranha ao
mesmo tempo, temeu que essa insistente e tímida esperança de que alguém a
amasse tivesse lhe levando à loucura, ela agora misturando sonhos com
realidade, na ânsia de que alguém, em algum recanto desse universo
pensasse nela, infinitamente, em algum momento, em algum lugar. “Quem
sou eu afinal, onde estou de verdade naquilo que posso reconhecer como
sendo eu mesma? O que é sonho e o que é real nessa história toda?”
Pietra ainda não sabia que era uma entre tantas outras pietras, neste e
em outros mundos, e que começava a perceber os acontecimentos a seu
redor a partir de várias realidades que ela desconhecia até então. Ela
pensa que está enlouquecendo mas percebe cada vez mais nitidamente que
não é possível acreditar na existência de uma realidade objetiva.
Condicionamo-nos a acreditar que apenas uma história, que chamaríamos
vencedora, é a que conta, que devemos consolidar. Pietra descobrirá que
não devemos reduzir tão dramaticamente o que somos a essa história
predominante.
O celular tocou. Era do Brasil.
- Bom dia! Gostaria de falar com a Sra. Pietra.
- Sim, é ela, boa tar..., desculpa, bom dia para você!
-
Sra, obtive suas referências pelo Sr. Leonardo. Preciso do serviço de
um ghost writer e ele me deu seu telefone. A Sra. está disponível para o
serviço?
- Bem, estou viajando, na Itália, mas do que se trata especificamente o trabalho.
-
Sra., o assunto não pode ser tratado por telefone. Espero a sra. voltar
de viagem e ligo novamente se houver interesse. A sra. não reclamará
dos honorários, esteja certa.
- OK, ligue-me novamente em três semanas.
- De acordo, sra. Bom proveito e boa viagem de retorno.
Que
agradável e ao mesmo tempo estranho timbre de voz desse senhor! Esqueci
de perguntar-lhe o nome. Do que se tratará? Bem isso pode esperar.
Ainda tenho 17 dias de Itália, concluiu com um gesto de cabeça como se
quisesse deixar aqueles devaneios de lado pois sua próxima atração era
Pompéia.
Chegou
na estação central de Nápoles e procurou a estação Circumvesuviana.
Dirigiu-se à bilheteria e comprou um bilhete para o trem com direção à
Sorrento, descendo em seguida para a estação. A viagem foi bem
cansativa. O trem era muito velho e as pessoas extremamente mal
educadas. Era um empurra-empurra, passando na sua frente, pisando no seu
pé, um caos. Não valia à pena olhar a paisagem pela janela, pois só o
que se via eram lugares sujos, mal cuidados e com várias pilhas de lixo.
Desçeu na estação Pompei Scavi - Villa dei Misteri.
Deixou
as malas na mini estação e foi em direção à bilheteria das escavações.
Na bilheteria, começou uma grande confusão quando um casal de americanos
entrou na frente de todo mundo para comprar os ingressos na maior cara
de pau. Muitas pessoas começaram a reclamar e eles fingiram que não era
com eles. A moça que vendia os bilhetes não quis atendê-los e os mandou
para o final da fila. Enfim, Pietra entrou nas escavações e foi
apreciando o que milhares de olhos testemunhavam todos os anos, os
corpos petrificados de Pompéia, a famosa réplica do Fauno. O lugar
fervilhava de turistas. Parou para encher sua garrafinha de água em um
bebedouro local. Algumas vezes se sentia perdida, não sabia exatamente
onde estava apesar de tantas placas e mapas espalhados por toda parte.
Não conseguia tirar da cabeça a voz da pessoa desconhecida que tinha
ligado para ela do Brasil. Que curioso que Leonardo tenha lhe indicado
seu nome. Por que será? Meus Deus, o que estou fazendo aqui no meio de
todas essas ruínas? E aquele rosto do assassino, parecia vê-lo em toda
parte agora. Parecia-lhe tê-lo visto algumas vezes, no rosto de
diferentes turistas. Não, não podia continuar aqui, tinha que partir. A
imagem daquele homem a perseguia. Voltou correndo para a estação e
comprou a passagem para Sorrento. Ao chegar, deixou as coisas no hotel e
foi andar pela cidade, para esquecer Nápoles.
“Sorrento é linda!” Sentiu fome e entrou em um restaurante muito bonito
e charmoso. Pediu uma salada, uma soda e um frango ensopado. Ao fundo,
sobre o Mediterrâneo, uma vista magnifíca do Vesúvio que lhe fazia
dividir a atenção com a deliciosa torta caprese que pediu de sobremesa.
Depois de passar por tanta ruína, chegar num lugar como Sorrento estava
sendo muito bom, até que ela ouviu o grito “Tirem a faca da mão dele!”
E aconteceu de novo, a mesma cena, o crime, o olhar de fera saciada. O destino estava querendo dizer alguma coisa a Pietra.
sábado, 7 de julho de 2012
Cap III - O Rapto
A alienígena usava um roupão inteiriço vermelho, com uma fila dupla de botões dourados percorrendo a parte da frente de cima a baixo, como se fosse um fardão.
- Sabe bem, Hadros, que não sou desse mundo. Sou do planeta Tatooine com o qual você sonhou. Recebi o seu chamado e vim te buscar. Nasci lá, como um castigo que me foi imposto pelos senhores supremos do universo que quiseram me separar de você. Todos esses anos fiquei atenta esperando o teu chamado, querendo te localizar, me preparando de todas as formas possíveis para saber identificar o teu sinal. Até que recebo uma visita projeciológica sua. Vamos, minha nave nos espera lá fora. Vim lhe buscar para ser meu companheiro numa viagem que faremos para construir o lar que está reservado para nós no planeta distante que estava no teu sonho. Tenho plano pra nós longe daqui, em algum lugar bem distante deste mundo em que vives hoje sem um futuro digno para você.
Antes de continuar, interrompo momentaneamente o interlóquio para caracterizar os personagens envolvidos nessa cena. Susy protagonizou acontecimentos insólitos que se sucederam desde que ela descobriu que havia algo de errado no modelo padrão de funcionamento comportamental dos habitantes de seu planeta natal, por tê-la separado do que ela acreditava ser seu parceiro ideal, colocando-os em dois mundo distintos e distantes cerca de 10 anos-luzes um do outro. Seu suposto amado nasceu em um planeta semelhante à Terra que orbita um sol diminuto na constelação de Carina chamado por vocês terráqueos de NGS 549672, ascensão reta de 13 h e declinação de -60º, enquanto Susy vem da super Terra. Na verdade, de uma lua que orbita este planeta na estrela Gliese, que fica na constelação de Libra a 20,5 anos-luzes da Terra, com ascensão reta de 15,3 h e declinação de -7,7º. Não perca tempo procurando essa estrelinha a olho nu no firmamento, você que me lê. Sua magnitude aparente é maior que 10, o que significa invisível para olhos humanos sem algum aparato ótico auxiliar. Nenhuma correlação, no entanto, com o fato de que o que os gliesianos mais gostam é se passarem desapercebidos dos grandes holofotes dos centros sociais galáticos, características que eles preservam mesmo depois de irem para um planeta tão fashion como a Terra. Bem, esses eram os CEPs cósmicos desses personagens quando nasceram. Continuemos, então, de onde interrompemos:
- Fecha essa boca, mulher, que tu tem jeito mesmo de pessoa mandada dos encantamentos. Quem te mandou vir aqui?
- Acabei de te dizer, captei as ondas do sonho que você teve. Estamos marcados para ter uma vida comum no planeta azul de uma estrela amarelada. .
- Os dois sóis de Tatooine devem ter te feito mal, moura sideral. Não me lembro de sonho algum. Não tenho razão alguma para deixar meu planeta. Vivo no planeta com melhor qualidade de vida da galáxia, onde cada um contribui de acordo com sua capacidade e obtem de acordo com sua necessidade, merecendo o que está de acordo com seus atos. Por que iria eu querer sair daqui rumo a civilizações mais atrasadas?
Uma pequena pausa para explicar melhor esse love story cósmico porque sei que parece um pouco inverossímel. Assim que descobriu sua cara metade, Suzy começou os preparativos para fugir de seu planeta, o que deveria ser feito com o maior cuidado possível, com sigilo absoluto, sem despertar suspeitas na rigorosa vigilância que todos gliesianos se submetem. Um trabalho forçosamente lento, que exige toda a calma do mundo, esperando o momento certo e curto, a pequena janela de fuga que surgisse, para sair em busca de seus sonhos. Desde que captou a suposta projeção de Hadros, passou a tramar incessantemente como resolveria o problema porque já não podia mais viver sem seu amado.
- Apresse, não temos muito tempo a perder. Estou sendo perseguida pela polícia intra-galática.
- Afinal, você diz que sonhei com o seu planeta circumbinário ou com esse planeta remoto que seria nosso hipotético destino? - retrucou Hadros tentando ganhar tempo e bolar alguma forma de fugir daquela doida.
- Não tenho mais tempo a perder, querido. Recebi uma mensagem vindo de você, e era muito forte, algo que me fez vir até aqui para te incitar a ir além de você mesmo, a buscar oportunidades de se conectar com alguém que pode te dar um futuro, está escrito. Porque nesse planeta tu vives uma vida infrutífera. Teu chamado me alcançou lá fora, longe, no meu planeta. Você tem potencial, pode ser tornar um canal para que coisas importantes aconteçam.
- Fala sério, não estou entendendo nada. Quem é você afinal?
Suzy perdeu a paciência, sacou de sua pistola e disparou um raio paralisante sobre Hadros, gerando um campo de forças em torno dele que congelou-o aparentemente, mas cujo efeito de fato era fazer o tempo fluir mil vezes mais lentamente que o normal. Ela não podia ter se enganado. As ondas morfológicas que recebeu em sonhos naquela noite que o erro do sistema padrão se revelou eram muito claras. Hadros era, sem dúvida, sua alma gêmea há tanto tempo buscada. Não, ela não se enganara, o equívoco não era seu. Foram os senhores supremos do universo que forjaram um erro em seu destino, naquilo que já estava predeterminado desde sempre, por mais que muitos no seu planeta insistissem que ela não batia muito bem da bola, que seu plano era mirabolante, uma aberração, um plano aventureiro. É bem verdade que é difícil sustentar essa teoria de que dois seres feitos um para o outro tivessem nascido em planetas diferentes.
Já a bordo de sua nave, a caminho do novo mundo, através do onipresente éter luminífero diatérmano que preenche o espaço sideral, Hadros foi para a cozinha e preparou um arroz com petit-pois. A nave de Suzy era diferente de tudo que Hadros já tinha utilizado em viagens espaciais. Havia uma espécie de jardim de inverno com plantas caindo do teto que davam a sensação de estar no meio de uma mata. Hadros deitou-se em uma rede que se estendia entre dois batentes em uma extremidade do jardim e começou a se balançar lentamente, pensando no que estava acontecendo, como fazia sempre após o jantar. Ouviu a voz de Suzy chegando e ao mesmo tempo um perfume muito agradável invadiu o recinto. Já que estava nessa e não tinha jeito mesmo, pensou que podia se divertir um pouco porque ninguém é de ferro. Suzy não era seu tipo, mas agora não tinha escolha. Tinha a pele cor de chocolate, ela prefere dizer de canela, como autêntica nativa de um sistema planetário circumbinário. Ela se aproximou e foi se encostando de maneira sensual. Procurou um espaço na rede e deitou-se com ele. Ficaram deitados, conhecendo-se mutuamente, quando o desejo veio como ondas de dois pontos distintos que se somam. Seu perfume era arrebatador. Respirava fundo, cada vez mais fundo, inebriando-se com o doce cheiro que emanava do corpo de Suzy. A mão dele deslizou por baixo de seu vestido e sua calcinha estava enxarcada. O amor explodiu com toda intensidade que os corpos permitem. Ela fez um movimento inesperado e brusco, atirando-o ao chão. Ficaram alí, beijando-se, mordendo-se e se apertando fortemente, o corpo de um contra o outro, com desejo intenso e ardente. Em certo momento, ela se virou por cima de Hadros, apoiou suas mãos no seu ombro e o prendeu, ofegante. A gadanha de Hadros latejava sob o sésamo descascado e pulsante de Suzy, que pingava um líquido denso e aromático. Hadros começou a sentir um líquido quente se despejando sobre seu pênis. Ela mijava sobre ele.
“Estou feliz e gozando de plena saúde. Você é meu.”
Nada a estranhar considerando que nossas personagens não são seres humanos, nem seres de sua igualha. Depois desse incidente sem maiores desdobramentos, pois para Hadros nada significou, os dois pombinhos prosseguiram em sua jornada rumo ao planeta selvagem. Passaram por uma nave de condenados. Ela vagaria para sempre, autocompelida, ao extremo de sua órbita, além das estrelas fixas e sóis variados e planetas zumbis, seres espaciais perdidos e a terras sem donos, para a fronteira extrema do espaço, passando de terra em terra, entre povos, entre eventos. Atendia imperceptivelmente a forças desconhecidas que a atraíam sabe-se lá até onde. Movia-se segundo leis de uma equação insatisfatória, entre um êxodo e retorno no tempo através do espaço reversível e de um êxodo e retorno no espaço através do tempo irreversível.
Entre os planetas por onde eles passaram existia um de nome estranho, intraduzível, לירושלים של מעלה, onde os habitantes eram experimentos de um senhor muito poderoso. Ele criou seus habitantes simples e ignorantes, para que, por si mesmos, fossem aprendendo, evoluindo, se aperfeiçoando, vivendo, morrendo, tornando a nascer, até que um dia pudessem atingir a perfeição relativa, ao invés de criá-los perfeito de primeira; perfeição total só existia no senhor criador. Havia uma promessa feita aos habitantes do planeta de que viveriam num estado de permanente felicidade no mundo espiritual se cumprissem todas as etapas evolutivas, o que era alcançável se se mantivessem sempre ativos para fazer o bem, ajudando os que ainda estavam engatinhando no caminho da evolução. O Criador os criou ignorantes, perfectíveis e com livre-arbítrio, para que só eles fôssem responsáveis pelas suas vidas e pelos seus atos. Pela lei de ação e reação, que existia nesse planeta, ou lei do retorno, como também era conhecida, sofreriam hoje para quitar ações faltosas do passado, de presumíveis vidas passadas. Só assim quitariam suas dívidas e evoluiriam ao longo das vidas futuras até que não precisassem mais reencarnar pois já teriam atingido aquela perfeição relativa. Dessa forma, não precisariam mais viver mais nesse astro de provas e expiações, indo para não sei onde, não procurei saber todos os detalhes. Dizem que nesse novo astro tem um clube de leitura que acede a bibliotecas com todos os livros que quiserem ler, com promessas de gozarem uma eternidade para ler tudo que quiserem, dentre outras coisas a fazer e desfrutar. Pas mal!
Antes de entrar nos domínios do sistema solar, a nave soaktha cruzou por um planeta zumbi conhecido em toda galáxia, porque ele era um campo de trabalho forçado. Havia uma família real no planeta, soldados, mas 90% da população era de escravos gerados em laboratórios de outros planetas que utilizavam de seus serviços. Tais escravos mediam quase que invariavelmente cerca de 60 cm, com peso de cerca de 25 Kg. Os soldados, também fabricados em laboratórios, mediam cerca de 2 m de altura e peso de cerca de 100 Kg. Este era um planeta muito hostil, cuja carga eletromagnética afetava naves passantes a milhares de quilômetros de sua superfície. Procuraram se afastar de sua rota o mais que puderam, desviando para esquerda em relação à via-láctea que cortava o céu à frente deles, dividindo-o em dois. Fizeram uma nova manobra em direção à Ursa Maior e seguiram em frente, sendo possível avistar pela tela principal da nave uma pequenina estrela amarela perdida na escuridão, o objetivo final.
“Bem, já que não tem como voltar atrás, cá estou rumo a esse lugar indesejado, repleto de seres inferiores e hostis”, pensava consigo Hadros. “Devo encarar isso como uma aventura passageira se possível. Assim que lá chegar, avisarei às autoridades que não pretendo permanecer. Aproveito para ver com meus próprios olhos o que jamais imaginei sequer em sonhos. Estive em Alpha Centauro, Sirius e Aldebarã. Fui perseguido por piratas espaciais. Vi muitos planetas zumbis. Estive em Capella e Arturus, atravessei nuvens de poeira interestelar sob o comando do capitão Sheran, o homem mais danado de bom cujas naves que comanda zelam pela segurança de muitos planetas. Nada se compara, no entanto, ao único acontecimento onde tive contato com alguém oriundo do planeta Terra. Foi em Antares que ouvi tais histórias, de uma festa beneficente promovido por um clube de almas penadas, onde ofereciam um jantar de fantasmas seguido de um baile de espectros. Era uma festa temática. Pois bem me lembro que foi nesse local que encontrei o único terráqueo que conheci até hoje. Era um jovem alto e loiro. Usava uma roupa de astronauta com uma insígnia no peito, símbolo da Frota Intergaláctica. Um sujeito muito estranho que falava sobre acessos extrafísicos a outras dimensões. Tinha um manuscrito nas mãos de cerca de umas cem páginas e dizia coisas ininteligíveis, de que era possível acessar dimensões paralelas ao mundo físico e tais dimensões ocupavam, elas mesmas, um local físico algures no universo, que o contato com esses seres era possível se atravessamos estranhos túneis parecidos a buracos de minhocas. Humpf! Serei indulgente com esses seres. Talvez até pratique alguma boa ação com esses pobres infelizes. Já ouvi dizer que sua Ciência sofre de uma profunda descoerência lógica, fruto de abordarem a natureza de forma equivocada. Ora, isso talvez não seja de todo mau.”
Enquanto isso, Suzy ressonava na rede. O que ela não sabia é que errou de endereço ao chegar em NGS 549672. Logo ao lado de onde raptou Hadros, alguém a esperava havia quatorze anos, de nome parecido, Andros.
Viajar de um planeta para outro obriga que um dos 2 viajantes viaje pelo espaço sideral a velocidades próxima à da luz, o que faz com que o tempo passe mais rápido para um do que para outro. No dia do presumido resgate, Susy era 14 anos mais jovem do que Andros porque foi ela a se submeter ao fenômeno da dilatação temporal, conhecido pelos terráqueos como o paradoxo dos gêmeos da relatividade restrita, pois foi ela que empreendeu a viagem numa velocidade próxima da luz para pegá-lo em NGS 549672. Pelo menos isso era o esperado. Sua viagem durou 14 anos terrestres para Andros enquanto que para ela tinha decorrido apenas 48 dias. Nesse intervalo de tempo, enquanto envelhecia, Andros dedicou-se a leituras e aos preparativos para receber sua noiva cósmica, deixando tudo pronto para fugir imediatamente antes que os demais conterrâneos dessem conta do que aconteceria. Eram inicialmente da mesma idade, ele e Susy, ele conhecedor profundo dos costumes vigentes na Terra, sabia a importância de ser ela a se sacrificar com a viagem inicial vindo ao seu encontro, embora não fizesse muita diferença quem fizesse o primeiro trecho da viagem do ponto de vista do percurso total da viagem. A história que usou para convencer Susy de ser ela a iniciar a viagem lhe pareceu bastante satisfatória, de que por razões relacionadas ao espectro de radiação de estrelas do tipo solar, seres do sexo feminino se desenvolvem mais rapidamente do que os masculinos nesse planeta pitoresco para onde eles iriam construir o futuro, e que um atraso no passar do tempo para Suzy a favoreceria do ponto de vista da futura vida sexual na Terra.
A super Terra, planeta de origem de Susy, é conhecida intergalaticamente por terem os habitantes mais bem informados sobre assuntos pragmáticos de todo aglomerado de Virgem com sua mais de mil galáxias, entre as quais se insere a própria Via-Láctea. O único defeito de seus habitantes é o de serem reconhecidamente um pouco afobados.
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